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Todos os seres humanos também vão morrer
© 2007 Gary L. Francione

©Tradução: Regina Rheda

©Ediciones Ánima- Publicado en: http://www.anima.org.ar


Texto do Blog de Gary L. Francione

18 de fevereiro de 2007

Parece que o movimento de defesa animal anda ocupadíssimo, acotovelando-se num atropelo frenético para disputar a melhor posição para beijar o traseiro corporativo do Whole Foods Market e seu executivo-chefe John Mackey.

Certo, o Whole Foods vende toneladas de cadáveres de animais (frescos e congelados) e milhares de produtos de origem animal. Mas não tenham medo, defensores dos animais. Trata-se de produtos animais “felizes”. Ninguém menos do que o luminar Peter Singer, a quem chamam de “pai do movimento pelos direitos animais”, é quem nos conta que o “Whole Foods criou a Animal Compassion Foundation, uma organização independente e sem fins lucrativos cuja missão é ‘oferecer educação e serviços de pesquisa para auxiliar e inspirar fazendeiros e produtores de carne em todas as partes do mundo a alcançarem um padrão de excelência em termos de bem-estar animal, mantendo, ao mesmo tempo, a viabilidade econômica’” (The Way We Eat: Why Our Food Choices Matter, p. 181). Radical, hein? A Animal Compassion Foundation vai “auxiliar e inspirar” os produtores de cadáveres de animais a melhorarem as coisas, dentro da medida em que eles puderem ter um lucro aceitável. Em outras palavras, nós podemos vender cadáveres de animais e ter lucro, mas você, o “consumidor compassivo”, pode se sentir bem quanto a isso. Espere uma revolução.

A Whole Foods, segundo Nosso Pai, é um “negócio ético” (p. 183), uma parte daquilo que Singer considera ser a abordagem “conscienciosamente onívora” da exploração dos não-humanos. E o Whole Foods promete que os “produtores que conseguirem cumprir esses padrões facultativos poderão colocar, no rótulo de seus produtos, a designação especial ‘Animal Compassionate’”. É mais um selo de carne “feliz” para competir com os selos Certified Humane Raised & Handled e Freedom Foods. Nossa, quantas opções de carne “feliz”!

Singer, junto com as corporações bem-estaristas The Humane Society of the United States, People for the Ethical Treatment of Animals, Farm Sanctuary, Compassion Over Killing e Vegan Outreach, além de outras, escreveu a Mackey uma carta aberta expressando “aprovação e apoio à iniciativa pioneira que o Whole Foods Market teve de estabelecer os Farm Animal Compassionate Standards [padrões compassivos para animais de fazenda]”. Perguntado se estava preocupado com o fato de o Whole Foods usar sua carta para fins de relações públicas e marketing, Singer respondeu:

Não tenho o menor problema em relação a isso. Eu apóio o que a carta diz e eles [Whole Foods] podem se sentir à vontade quanto a usá-la. Quero dizer, nós escrevemos essa carta para eles na expectativa de que eles a usassem. Não foi simplesmente uma carta pessoal para John Mackey guardar no arquivo dele.

Em 2004, a PETA deu um prêmio ao Whole Foods, declarando que a empresa “fez consistentemente mais pelo bem-estar animal do que qualquer varejista na indústria, exigindo que seus produtores respeitem os padrões estritos”.

A revista VegNews fez uma matéria de capa sobre Mackey e deu prêmios ao Whole Foods e a Mackey.

Até Tom Regan, que se esforça tanto para se distinguir de Singer, entrou na caravana do Whole Foods. Em 2005, no International Compassionate Living Festival, que se destinava a homenagear os “indivíduos exemplares que ousaram desafiar o status quo e assumir a causa dos oprimidos”, Regan convidou Mackey para fazer a palestra principal. No folheto de Regan, Mackey foi definido como o “executivo-chefe vegano do Whole Foods Market, o líder entre os supermercados de alimentos orgânicos e naturais do mundo e uma força propulsora do aumento dos padrões do bem-estar animal”.

Alguns defensores dos animais podem fazer objeção ao fato de Singer, Regan, PETA, VegNews e outros defensores da carne “feliz” terem se transformado na divisão de marketing dos exploradores institucionais, tais como o Whole Foods, cujos negócios se apóiam no fato de o público não aceitar os direitos animais. Alguns defensores dos animais podem afirmar que há algo de realmente maluco no fato de se elogiar o Whole Foods por ele ser um senhor de escravos mais “humanitário”, cujos capatazes batem em seus escravos 5 vezes por dia, em vez de 6 vezes.

Mas tais objeções seriam injustificadas, claro... Esses defensores da carne “feliz” têm o direito de vibrar com o Whole Foods. Trata-se de uma corporação que se importa com as coisas. E se importa muito.

Veja por exemplo a recente decisão do Whole Foods quanto às lagostas.

Em junho de 2006, o Whole Foods anunciou ter estudado um relatório concluindo que as lagostas e os caranguejos são sencientes, ou subjetivamente conscientes, e ter concluído que, até que “seja possível melhorar suficientemente o manejo e a manipulação de lagostas vivas a fim de assegurar seu tratamento humanitário ao longo de toda a cadeia de abastecimento”, o Whole Foods não venderia lagostas vivas.

A PETA comemorou uma “Vitória para as lagostas e os caranguejos!”.

A declaração do Whole Foods, de 16 de junho de 2006, também dizia que seus supermercados continuariam a “vender produtos selecionados, crus e congelados, feitos com carne de lagosta”. Então a “vitória”, na verdade, era que o “consumidor compassivo” estaria livre de ver as lagostas vivas num aquário do Whole Foods; elas seriam mortas em algum outro lugar e seus cadáveres seriam levados ao Whole Foods para ser vendidos.

Segundo notícias publicadas em 8 de janeiro de 2007 no The Boston Globe e no Portland Press Herald, a cadeia Whole Foods vai suspender sua interdição às lagostas vivas em um caso, que é o de um supermercado novo a ser aberto em Portland, no Maine.

Mas não se alarmem, defensores dos animais. O Whole Foods deseja o melhor para as lagostas.

Embora o Whole Foods vá permitir a comercialização de lagostas vivas no supermercado de Portland, essas lagostas estarão dispostas, desde quando tiverem sido pescadas, “em posição vertical, com as garras para cima e o rabo para baixo, dentro de cabines de plástico”—o que o Whole Foods chama de “condos” [apartamentos e/ou condomínios].

E para ilustrar o argumento de que uma boa moral e um bom negócio andam de mãos dadas—ou seja, que o bem-estar animal está ligado à exploração eficiente dos animais, conforme venho argumentando há muito tempo—essa é uma situação em que todo mundo sai ganhando: os produtores de lagostas, os comerciantes de lagostas e as próprias lagostas! A companhia Little Bay Lobster Co., que desenvolveu esses “condos”, declara que, com o uso dos métodos tradicionais de transporte, “cerca de 5% das lagostas morrem no caminho, o que custa à indústria da lagosta do Maine até $20 milhões por ano”. Os “condos” isolam uma lagosta da outra, confinando cada uma num pequeno invólucro de plástico e reduzindo assim as mortes que ocorrem quando as lagostas andam umas por cima das outras. Além disso, o método “condo” “melhora a aparência das lagostas nos supermercados, onde fregueses exigentes podem não querer uma que esteja com a antena comida por outra colega de engradado”, afirma Little Bay, e acrescenta: “Fizemos isso pelo lucro. Mas, no fim, isso atendeu os objetivos do Whole Foods”.

E a Little Bay vai certamente precisar de um plano melhor para lucrar. Em 10 de fevereiro de 2007, o Portland Press Herald noticiou que, em 2006, a Little Bay foi multada em $86.000 pela Environmental Protection Agency por ter ilegalmente despejado poluentes em um rio e por outras infrações, inclusive a de mergulhar as armadilhas para lagostas em um produto químico tóxico e em seguida deixar esse produto se misturar às águas de um rio.

Agora vocês devem estar perguntando: mas e quanto a matar as lagostas? Não se preocupem, defensores dos animais! Vocês acham que Peter Singer, Tom Regan, PETA e todos os outros membros da torcida do Whole Foods iriam tapeá-los?

Toda lagosta que estiver no supermercado há mais de sete dias (elas serão “identificadas a partir da cor dos elásticos que prendem suas garras, conforme um código de cores”) será “eletrocutada e vendida em forma de salada de lagosta ou outras delícias”. Sim, “os funcionários usarão um aparelho chamado ‘CrustaStun’, que mata instantaneamente as lagostas com um choque de 110 volts, em vez de fervê-las”. Os fregueses também podem pedir para que suas lagostas sejam eletrocutadas antes de levá-las para casa.

Finalmente as pessoas podem comer lagosta outra vez, sem sentirem culpa por ter de matá-las em água fervente. Isso é que significa ser um “onívoro consciencioso”—explorar os animais e, ao mesmo tempo, se sentir moralmente superior. Que mais que a gente poderia querer?

Mas e quanto à escolha do consumidor? Isso não tem importância? E se um consumidor quiser ferver sua lagosta, em vez de a lagosta ser eletrocutada “humanitariamente” no Whole Foods? Afinal de contas, Peter Singer nos disse, no livro The Way We Eat, que John Mackey tem uma “perspectiva libertária” (p. 182). Singer menciona isso ao explicar por que Mackey é contra os funcionários do Whole Foods se organizarem em um sindicato. Mas, sem dúvida, um cara que se opõe às organizações sindicais por razões libertárias só pode ser um cara que se preocupa com as escolhas do consumidor.

E ele se preocupa. O Boston Globe noticia: “Os consumidores continuarão podendo comprar lagostas vivas e matá-las em casa”.

Por um momento, fiquei preocupado.

Mas e o tratamento “humanitário”? Afinal de contas, não é uma grande maldade ferver uma lagosta viva? Calma! O Whole Foods pensou em tudo. O Portland Press Herald noticia: “Os consumidores que saírem do supermercado com lagostas vivas vão levar junto um cartão explicando um método humanitário de preparação”.

Então você tem:

- “Condos” para as lagostas e maior lucratividade para a indústria da lagosta.

- Eletrocussão de lagostas com o “CrustaStun” para atender aqueles consumidores realmente “compassivos” que querem comer lagosta sentindo o mínimo de culpa possível.

- Fervura “humanitária” de lagostas para atender aqueles onívoros que são menos "compassivos" mas pertencem à categoria dos “onívoros conscienciosos”.

- Fervura convencional de lagostas para atender os demais consumidoresmas até mesmo estes últimos são moralmente melhores do que aqueles que fazem compras em supermercados convencionais, porque compraram suas lagostas no Whole Foods, um ato que é, em si mesmo, uma declaração de compromisso com o estilo de vida “compassivo para com os animais”.

- E se você comprar sua lagosta em um dos dias especiais para compras, quando o Whole Foods doa 5% do total de suas vendas à Animal Compassion Foundation, então você estará contribuindo, no ato da compra, para aumentar o bem-estar dos animais criados em fazendas.

Será que ainda pode haver alguma dúvida quanto ao porquê de a turma da carne/produtos animais “felizes” estar tão entusiasmada com o Whole Foods e John Mackey? De jeito nenhum.

Não admira que a PETA tenha se apressado a elogiar o Whole Foods por ter mudado sua decisão de não vender lagostas vivas, dizendo que, embora a PETA deseje que ninguém vendesse lagostas, o Whole Foods tem de ser “aplaudido por tentar melhorar as condições de vida das lagostas antes da venda”. Em outra matéria do Boston Globe, em 7 de fevereiro de 2007, noticiou-se que a “People for the Ethical Treatment of Animals, o grupo de defesa dos direitos animais sediado na Virgínia, preferiria que o Whole Foods não vendesse lagostas vivas, mas disse que a empresa também tem de ser elogiada pelo fato de assegurar que os animais estejam sendo tratados humanitariamente. ‘Nossa expectativa é a de que todos os estabelecimentos do Maine que vendem lagostas vivas tenham de implementar protocolos do bem-estar animal a fim de competirem com o Whole Foods, o que seria uma boa coisa’, disse Matt Prescott, da sede da PETA em Norfolk, Va”.

Uma vitória para as lagostas!

Talvez a PETA produza um novo vídeo com uma mulher fantasiada de lagosta fazendo um striptease e depois entrando numa enorme panela, dando um sorriso e acenando para seu público, enquanto é eletrocutada com um aparelho “CrustaStun”.

Àqueles que consideram tudo isso trágico, peço que sejam otimistas. Fiquem com um pensamento filosófico de David Lannon, o presidente da região do norte do Atlântico do Whole Foods: “Todos os seres humanos também vão morrer. Mas a qualidade de vida é importante enquanto estamos vivos. Com os animais é a mesma coisa”.

Isso é que é um pensamento profundo.

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