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Perguntas mais freqüentes, parte 2 | Perguntas mais freqüentes, parte 2 |
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© 2007 Gary L. Francione ©Tradução: Regina Rheda ©Ediciones Ánima- Publicado en: http://www.anima.org.ar Texto do Blog de Gary L. Francione 11 de abril de 2007 Esta é a segunda parte do ensaio sobre as perguntas mais freqüentes. A primeira parte foi publicada neste blog na semana passada. 4. Pergunta: O uso de animais pelos humanos não é uma “tradição”, ou “natural”, e portanto justificado moralmente? Resposta: Não. Toda forma de discriminação na história da humanidade foi defendida como “tradicional”. O sexismo costuma ser justificado com base na idéia de que a subserviência das mulheres aos homens é tradicional: “O lugar de uma mulher é seu lar”. A escravidão humana foi considerada uma tradição na maioria das culturas, às vezes. O fato de algum comportamento poder ser caracterizado como tradicional não tem nada a ver com a questão de determinar se esse comportamento é moralmente aceitável ou não. Além de se apoiar na tradição, algumas pessoas afirmam que nosso uso de animais é “natural” e depois declaram que o uso é moralmente admissível. De novo: qualificar alguma coisa como natural, em si, não diz nada sobre a moralidade da prática. Em primeiro lugar, quase toda forma de discriminação já praticada foi descrita como natural e como tradicional. As duas noções são, com freqüência, usadas de maneira intercambiável. Já justificamos a escravidão humana baseados na idéia de que ela representa uma hierarquia natural entre proprietários de escravos e escravos. Justificamos o sexismo baseados na idéia de que ele representa a superioridade natural dos homens em relação às mulheres. Além do mais, é um pouco estranho qualificar como “natural”, em qualquer sentido da palavra, a maneira moderna de usarmos os animais como mercadorias. A fim de maximizar lucros, nós desenvolvemos ambientes e procedimentos completamente não-naturais para criar animais para consumo. Uma variação dessa questão trata das tradições de certos grupos. Por exemplo, em maio de 1999, a tribo Makah, do estado de Washington, matou sua primeira baleia-cinzenta em mais de setenta anos. A matança, que foi realizada com arpões de aço, armas antitanque, barcos de caça motorizados e munição que penetra em blindagens, e que contou com uma grande soma de dinheiro do governo federal, foi defendida com base no fato de que a caça à baleia era uma tradição Makah. Mas, o mesmo argumento poderia ser (e é) apresentado para defender mutilações de clitóris na África e a queima de esposas até a morte na Índia. A questão não é se a conduta é parte de uma cultura; toda conduta é parte de uma cultura. A questão é se a conduta pode ser moralmente justificada. 5. Pergunta: Mas os animais não-humanos comem outros não-humanos na natureza, então não está certo nós os comermos? Resposta: Não. Em primeiro lugar, embora alguns animais comam outros na natureza, muitos não comem. Muitos animais são veganos. Além disso, nossa idéia de que “a natureza é cruel” não nos deixa ver que há muito mais cooperação na natureza do que conseguimos imaginar. Segundo, se os animais comem outros animais é uma questão que não importa nesta discussão. Como poderia ser relevante se os animais comem ou não comem outros animais? Alguns animais são carnívoros e não podem existir sem comer carne. Nós não estamos dentro dessa categoria; podemos passar muito bem sem comer carne, e cada vez mais pessoas estão se convencendo de que tanto nossa saúde quanto o ambiente se beneficiariam se mudássemos nossa dieta, parando de consumir produtos animais. Terceiro, os animais fazem toda sorte de coisas que os humanos não consideram moralmente apropriadas. Por exemplo, os cachorros copulam e defecam na rua. Isso significa que nós deveríamos seguir seu exemplo? Quarto, é interessante que, quando nos convém, tentamos justificar nossa exploração dos animais com base em nossa suposta “superioridade”. E quando nossa suposta “superioridade” atrapalha alguma coisa que queremos fazer, nós de repente nos descrevemos como apenas mais uma espécie de animal selvagem, tão autorizada a comer galinhas quanto as raposas. 6. Pergunta: Hitler era vegetariano; o que isso nos diz sobre os vegetarianos? Resposta: Não nos diz nada além de que algumas pessoas más também podem ser pessoas que não comem carne. A própria pergunta é baseada em uma forma inválida de argumento: - Hitler não comia carne. - Hitler era mau. - Portanto, gente que não come carne é gente má. Stalin comia carne e era uma pessoa muito nefasta. Ele foi responsável pela morte de milhões de pessoas inocentes. O que isso nos diz sobre as pessoas que comem carne? Assim como não podemos concluir que todas as pessoas que comem carne têm algo em comum com Stalin além do fato de comer carne, também não podemos concluir que todos aqueles que não comem carne têm algo em comum com Hitler além do fato de não comer carne. Além do mais, não se sabe ao certo se Hitler era de fato vegetariano, e algumas pessoas afirmam enfaticamente que ele não era. E, de qualquer maneira, o interesse dos nazistas em reduzir o consumo de carne não era uma questão de status moral dos animais, mas refletia uma preocupação com a saúde e a cura por meio da alimentação orgânica, e com a rejeição de ingredientes artificiais tanto na comida quanto nos produtos farmacêuticos, preocupação essa que estava ligada ao objetivo nazista mais amplo da “higiene racial”. Além disso, mesmo se Hitler fosse vegetariano, e daí? Ele não era vegano. Não há diferença lógica ou moral entre as carnes, os laticínios e os ovos. Então, mesmo se Hitler não comesse carne, ele participava diretamente de uma forma de exploração animal que é, em tudo e por tudo, tão objetável, no plano moral, quanto o consumo de carnes de animais. Outra versão dessa pergunta é esta: já que os nazistas também eram a favor dos direitos animais, isso significa que a teoria moral dos direitos animais esteja arruinada e procure desvalorizar os seres humanos? Mais uma vez, a pergunta é absurda. Em primeiro lugar, ela é baseada em um erro factual. Os nazistas não eram a favor dos direitos animais. As leis do bem-estar animal alemãs restringiam a vivissecção até certo ponto, mas elas não refletiam uma preferência social pela abolição da condição de propriedade dos animais. Afinal de contas, os nazistas mataram banalmente milhões de humanos e animais durante a segunda guerra mundial, um comportamento incompatível com a posição dos direitos, humanos ou outros. Dizer que os nazistas apoiavam os direitos animais não é mais correto do que dizer que os norte-americanos apóiam os direitos animais porque têm uma lei federal do bem-estar animal. Mas, e se, ao contrário da realidade, os nazistas tivessem defendido a abolição de toda exploração animal? O que isso nos diria, com relação à idéia dos direitos animais? A resposta é absolutamente clara: isso não nos diria nada sobre a posição dos direitos animais ser certa ou ser errada. Essa questão só pode ser resolvida determinando-se se os argumentos morais a favor dos direitos animais são válidos ou não. Os nazistas também apoiavam vigorosamente o casamento. Isso significa que o casamento seja uma instituição inerentemente imoral? Os nazistas também acreditavam que praticar esportes é uma atividade essencial para o desenvolvimento de um caráter forte. Isso significa que as competições esportivas sejam inerentemente imorais? Jesus Cristo pregava um evangelho em favor da distribuição igualitária de recursos. Gandhi difundia uma mensagem semelhante, assim como Stalin. Mas Stalin também desvalorizava seres humanos. Podemos concluir que a idéia de uma distribuição mais igualitária de recursos contém uma falha moral inerente, que corrompe as mensagens de Jesus e Gandhi? Não, claro que não. Não desvalorizamos mais a vida humana, ao darmos importância moral aos interesses dos animais, do que desvalorizamos a vida dos seres humanos “normais” ao darmos valor moral aos humanos com grave deficiência mental e proibirmos seu uso na experimentação. Fonte: Gary L. Francione, Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog?, (Philadelphia: Temple University Press, 2000). |
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