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Carne/Produtos Animais “Felizes”

Carne/produtos animais “felizes”: um passo na direção certa ou “um ponto de acesso mais fácil” de volta a comermos animais?

7 de fevereiro de 2007


Um artigo recente da BBC News Magazine acaba de chamar minha atenção. Cita a professora escolar Rachael Deacon: “Eu pago mais caro para comprar comida mais saudável. Não quero que meus animais sejam abatidos de maneira horrível, nem que tenham uma vida horrível”. Fora o fato de que a Ms. Deacon pensa que existe um abate que não seja horrível, será que sua preocupação geral é um caso de sucesso para os defensores dos animais que promovem a carne “feliz” como um passo incremental rumo a um mundo com menos sofrimento e morte?


Não. Ela foi vegetariana durante 10 anos, mas agora voltou a comer carne.

Deacon é uma “onívora conscienciosa”. Ela é um exemplo do problema da abordagem “carne feliz” que tomou conta do movimento pelos animais. Grandes corporações bem-estaristas criaram rótulos ou selos como o Certified Humane Raised & Handled e o Freedom Food para fazer os consumidores se sentirem melhor quanto a comer animais criados e mortos de cada maneira que, se fosse aplicada a humanos, seria considerada, sem sombra de dúvida, tortura. Defensores dos animais dão prêmios a projetistas de matadouros e elogiam publicamente cadeias de supermercados que vendem corpos criados e abatidos de forma supostamente humanitária, além de outros produtos animais “felizes”.

Essa abordagem não leva as pessoas, incrementalmente, à direção certa. Ao contrário,
lhes dá uma razão para andarem para trás. Concentra-se no tratamento do animal em vez do uso do animal e dá às pessoas a ilusão de que as regulamentações bem-estaristas estão, de fato, resultando em uma proteção significativa dos animais.

O artigo da BBC
“Some sausages are more equal than others” [“Algumas lingüiças são mais iguais do que outras”] ilustra mais o problema. A repórter Megan Lane nos conta que foi vegetariana durante 14 anos, mas que “começou a comer carne de novo, porém só de animais que desfrutaram uma vida feliz antes de ser abatidos”. Diz ela que, quando se tornou vegetariana, não era fácil encontrar “a carne orgânica e a de animais criados soltos”, e agora é.

Lane descreve a aquisição da carne orgânica e a de animais criados “soltos” como um “mercado de nicho em que o produto é comprado tipicamente por aqueles que decidem gastar bastante dinheiro para resolver um problema”. Ela observa que as vendas da carne “feliz” subiram 14% em relação ao ano passado no Reino Unido, mas ainda representam apenas 1,4% das vendas de carne vermelha.

Ela cita Chris Lamb [Chris Cordeiro] (sem trocadilho, aqui), da Meat and Livestock Comission [comissão da carne e do rebanho], que diz que “se a pessoa for vegetariana por razões éticas, o fato de haver agora estabelecimentos vendendo produtos de fazenda orgânicos, ou provenientes de animais criados ao ar livre, que fazem a coisa toda parecer mais aceitável, dá a essa pessoa um ponto de acesso mais fácil de volta”.

Lane também cita um porta-voz da Vegetarian Society que reconhece que animais orgânicos e criados soltos também são mortos, mas que afirma que “muitos dentre os 3 milhões de vegetarianos no Reino Unido desistem da carne por causa da crueldade e das práticas lastimáveis envolvidas na criação intensiva”. A Vegetarian Society diz: “Não estamos criticando os métodos mais responsáveis que fazendeiros orgânicos empregam para ganhar a vida”. A notícia é seguida por vários comentários de leitores, muitos dos quais exaltando as virtudes da carne “criada eticamente”.


Não é um pouquinho irônico que um representante da
comissão da carne e do rebanho entenda perfeitamente o que está acontecendo? Carne “feliz” faz “a coisa toda parecer mais aceitável”. Carne “feliz” significa mais comedores de carne e mais animais abatidos. Por que os defensores dos animais não enxergam isto? É realmente muito simples.

O artigo de Lane reflete a realidade de que promover a carne “feliz” não está levando as pessoas a uma direção positiva. De fato, tudo o que essa promoção está conseguindo é fazer os poucos privilegiados que podem comprar carne orgânica em estabelecimentos mais caros se sentirem moralmente superiores, e dar, a muitas pessoas, uma desculpa para elas voltarem a comer carne e outros produtos animais.

E não é apenas o artigo de Lane que oferece evidência do retrocesso provocado pelo movimento pela carne “feliz”. Em um artigo em
Meatingplace, uma revista da indústria da carne cita a proeminente nutricionista Marion Nestle: “Agora, até vegetarianos de carteirinha e de longa data estão comendo carne porque a indústria respondeu às condições às quais eles mais se opunham. Isto apresenta uma importante oportunidade para crescimento, porque os consumidores pagarão mais por esses produtos”.


Em outro
artigo recente, somos informados sobre Maria Humel, que “tem um fraco por animais — e por crianças que pedem galinha à parmeggiana e deditos de galinha”. Humel faz compras em um estabelecimento que vende produtos feitos com carne, aprovados pela Humane Farm Animal Care e seus sócios, a Humane Society of the United States (HSUS), a American Society for the Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA), a Animal People e outros, com o rótulo Certified Humane [certificação humanitária]. Esse rótulo “ajuda a equilibrar a compaixão dela com o consumo das crianças”. Humel explica: “Isso é muito importante para mim porque eu realmente deveria ser vegetariana”. Em outras palavras, ela deveria ser vegetariana se “o grupo pelos direitos animais que criou o rótulo” não estivesse lá para pôr um selo de aprovação ao seu consumo de produtos animais.


No mesmo artigo, o executivo-chefe do D’Agostino’s, uma rede de supermercados com matriz em Nova York, diz que “as vendas de alguns de seus produtos subiram bastante, desde que a empresa começou a promover o logotipo ‘certificação humanitária’, há dois anos. O estabelecimento vende mais de 35 alimentos com a certificação humanitária, incluindo iogurte, leite, galinha, manteiga, ovos, porco e vitela — uma carne cujas vendas subiram mais de 25% desde que o estabelecimento começou a vendê-la com esse rótulo”.

Está claro que o movimento pela carne/produtos animais “felizes”
não está levando, incrementalmente, ao veganismo: está incentivando o consumo de animais por gente que caiu na conversa absurda de que nós podemos “consumir com consciência”.


Será que esses “onívoros conscienciosos” acreditam, realmente, que a regulamentação bem-estarista está fazendo um diferença verdadeira e palpável na vida desses animais? Se sim, estão se iludindo. Não há qualquer diferença significativa entre produtos animais obtidos da maneira convencional e produtos animais obtidos das criações “soltas”, ou orgânicas, ou tratadas de forma “humanitária”
— exceto que estes últimos produtos põem mais dinheiro nos bolsos das corporações. Excelentes informações sobre este assunto se encontram em The Free-Range Myth [O mito da criação solta], no website do Peaceful Prairie, um santuário abolicionista de animais que tem uma posição declarada quanto a carne e produtos animais "felizes". The Free-Range Myth consiste de duas apresentações — uma que explica por que os ovos de galinhas “criadas soltas” dão no mesmo que os ovos de galinhas presas em gaiolas de bateria e uma que explica por que o termo fazenda de criação “humanitária” é um oxímoro. Você pode pedir ambos os folhetos impressos ao Peaceful Prairie, ou baixar ambos os arquivos em PDF (ovos, criação) diretamente do website do santuário. Eu super-recomendo o uso destes dois folhetos aos defensores de animais que quiserem um bom material educativo vegano/abolicionista; os folhetos são excelentes e deixam claro que consumo moralmente aceitável de corpos ou produtos animais simplesmente não existe. The Free-Range Myth e os outros materiais impressos que o Peaceful Prairie também disponibiliza para baixar oferecem exemplos de primeiríssima do que eu quero dizer com educação vegana/abolicionista criativa.

A culpa pelo entusiasmo com relação à carne e outros produtos animais “felizes” é toda daqueles defensores dos animais que apóiam essas regulamentações e realizam campanhas dizendo que elas realmente fazem uma diferença, e que ignoram que é o
uso do animal, e não o tratamento dado a ele, a questão moral fundamental.


Se Peter Singer, o chamado “pai do movimento pelos direitos animais”, diz que é moralmente aceitável ser um “onívoro consciencioso”, ou ridiculariza os veganos coerentes dizendo que eles são “fanáticos”, então as outras pessoas — mesmo as que se importam com os não-humanos — vão achar aceitável comer carne e outros produtos animais “felizes”. Se Tom Regan, que contesta a alegação de paternidade de Singer, mas, junto com Singer, homenageia John Mackey, o magnata da carne “feliz” do mercado Whole Foods, então não admira que tanta gente “pró animais” pense que comer produtos animais “felizes” é aceitável e é também uma boa estratégia para se seguir.

Em 25 de janeiro de
2007, a Smithfield Foods, uma grande produtora de carne não-humana, anunciou que, ao longo dos próximos dez anos, vai eliminar gradualmente as celas de gestação para porcas e usar cercados mais espaçosos para grupos de animais. Esse anúncio ocorreu em seguida à campanha contra as celas de gestação feita pela HSUS, o Farm Sanctuary e outros grupos bem-estaristas. Essa campanha custou bem mais de 1.6 milhões de dólares. Conforme discuti em meu ensaio anterior, Um “triunfo” do bem-estar animal?, defensores dos animais argumentaram que, segundo demonstraram alguns estudos, os produtores de porcas obteriam mais lucro trocando seu sistema de alojamento de animais por um alternativo.

Em resposta ao anúncio da
Smithfield, Wayne Pacelle, presidente e executivo-chefe da HSUS, proclamou que “uma revolução está em andamento na indústria do porco”. Ele afirmou: “Em termos de tratamento humanitário de animais no setor do agronegócio, acho que não ocorreu nada mais importante do que isto”. Seguiram-se outras avaliações hiperbólicas semelhantes, feitas por outros adeptos da regulamentação bem-estarista. Por exemplo, Erik Marcus (vejam só) qualificou a iniciativa da Smithfield de “uma notícia espetacular”.

Que mensagem isso passa às pessoas? Isso passa a mensagem de que existe
— ou em dez anos existirá — uma melhora significativa no tratamento dado às porcas produzidas pelas fazendas Smithfield. Pacelle usa a palavra “revolução”. Isso passa a mensagem de que os animais da Smithfield terão “vidas felizes”. Isso reforça a idéia de que consumidores compassivos já podem descartar sua obrigação moral para com os não-humanos, comprando os cadáveres animais da Smithfield.

Em resumo, o anúncio da
Smithfield é, de fato, “uma notícia espetacular” para a Smithfield Foods, que vai desfrutar de maior produtividade e lucro, e poderá cobrar uma quantia extra para que consumidores elitistas possam continuar a comer animais e se sentir bem consigo mesmos. Também é “uma notícia espetacular” para a HSUS, o Farm Sanctuary e os outros bem-estaristas, que farão questão de proclamar esta grande “vitória” — esta “revolução”— em uma seqüência infindável de promoções e eventos para arrecadar fundos, enquanto disputam a tapas o crédito por esta “notícia espetacular”, esta “revolução”.

Mas, para os não-humanos, é uma triste derrota.
O fato de que defensores dos animais tenham gasto uma colossal soma de dinheiro em uma campanha que só fará as Megan Lanes, Rachael Deacons e Maria Humels da vida pensarem que está certo comer cadáveres e outros produtos animais porque esses animais terão tido uma “vida feliz” é, na minha opinião, assustador.

Não há a menor sombra de dúvida de que um investimento em educação vegana teria sido um uso melhor de recursos.
Por várias razões, um punhado de novos veganos teria significado mais — tanto a longo quanto a curto prazo — do que uma década de eliminação gradual de celas de gestação para porcas e a introdução de um sistema alternativo de alojamento cujos detalhes sequer são conhecidos ainda. Lembre-se de que a “proibição” da cela de gestação na Flórida se aplica a cercados onde uma porca é mantida durante a “maior parte de qualquer dia”. Ela ainda permite o uso da cela de gestação em certas circunstâncias, como para menos do que “a maior parte de qualquer dia”, o período imediatamente anterior ao parto, e por um tempo “não maior do que o razoavelmente necessário” para “propósitos veterinários”. A “proibição” da Flórida requer apenas que a porca consiga dar uma volta em torno do próprio corpo “sem ter de tocar qualquer lado do cercado”. Eu calculo que vai acontecer a mesma coisa com a Smithfield Foods. Quer dizer, uma proibição verdadeira das celas de gestação não faria uma diferença significativa na vida e na morte, ainda assim horríveis, das porcas. Mas a “proibição” não é nem mesmo uma proibição. Como a maioria das regulamentações do bem-estar, é principalmente um instrumento de marketing, e só será respeitada na medida em que trouxer benefício econômico.

Abolicionistas nunca deveriam promover o consumo de animais, por mais “humanitário” que seja, particularmente dado que promover a carne e os produtos animais “felizes” incentiva as pessoas com preocupações éticas a tomarem parte na ilusão de que podemos realmente dar uma “vida feliz” aos animais que comemos. Fora o fato de que a escravidão animal não pode ser justificada, independentemente de quão “humanitária” ela seja, a realidade é que a criação “solta” e a fazenda “humanitária” envolvem um sofrimento colossal. Essas fantasias românticas sobre o maravilhoso mundo dos animais na “fazenda familiar” são apenas isso — fantasias. Até a melhor das “fazendas familiares” é um lugar terrível para os não-humanos.


Imagine dois proprietários de escravos. O primeiro bate vinte vezes por semana em seus escravos. O segundo, dezenove. Existe qualquer diferença significativa entre eles dois, que justifique a idéia de que o segundo tem um comportamento moralmente louvável? Deveríamos considerar que bater nos escravos dezenove vezes por semana seja uma indicação de que “uma revolução está em andamento”? Deveríamos considerar que um golpe a menos é uma “notícia espetacular”?

Se sua resposta às perguntas acima for “não”, então você não pode, consistentemente, apoiar a posição de Singer,
HSUS, Farm Sanctuary, Vegan Outreach, PETA e o resto do movimento bem-estarista pela carne “feliz”.

É “melhor”, claro, bater nos escravos dezenove vezes por semana do que vinte. Mas isso não torna o fato de bater nos escravos dezenove vezes
por semana uma coisa moralmente aceitável, um indício de que “uma revolução está em andamento”, ou uma “notícia espetacular”. Não torna a escravidão — por mais “humanitária” que seja — moralmente justificável.

Temos tempo e recursos limitados. Cada centavo e cada segundo gastos em tornar a exploração animal mais “humanitária” são menos um centavo e menos um segundo gastos em educar sobre a única coisa que importa para a abolição: o veganismo. E todos os centavos e todos os segundos gastos na exploração “humanitária” fazem pouquíssimo, se é que fazem alguma coisa, pelos animais que estão sofrendo agora. E mais: ao promover a mentira descarada de que um animal criado numa fazenda orgânica, ou “solto”, tem uma “vida feliz”, a abordagem bem-estarista encoraja o público a continuar a consumir animais e perpetua o paradigma especista que deixou os humanos e os não-humanos no pé em que estão agora, para começo de conversa.

De uma coisa podemos estar certos: uma vez que aceitemos o absurdo de que o anúncio da
Smithfield Foods é um sinal de uma revolução “em andamento”, ou uma “notícia espetacular”, a verdadeira revolução — a rejeição não-violenta à exploração animal em favor da abolição, e o reconhecimento do veganismo como o apoio pessoal à abolição — nunca chegará.


Gary L. Francione

© 2007 Gary L. Francione

©Tradução: Regina Rheda

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